
Calo-me.
Um segundo é o bastante para perceber que mais alguém respira no recinto.
Olhos atentos miram meu semblante apreensivo.
Não consigo disfarçar um suspiro inconveniente.
Continuo meus passos.
Sento-me próximo à janela e peço um whisky com gelo.
O garçom me nega o pedido - já estão fechando a casa.
Escuto o saxofonista tocar as últimas notas do blues, pego meu casaco e tomo o rumo de casa.
Mais alguém decide ir embora.
Uma troca de olhares denuncia que a noite ainda não havia acabado.
Diminuo a distância entre os passos e, lentamente, o familiar estranho se aproxima.
Sinto minhas pernas perderem o ritmo. Paro.
"Você sabe que não deveria estar aqui", diz o estranho.
"Se este não é meu lugar, onde mais no universo seria?", respondo.
Silêncio.
Sem olhar para trás continuo minha caminhada.
Os passos me acompanham.
Ouço o celular tocar. Converso despreocupado naquela ruela escura e deserta.
Chego em casa e deixo a porta aberta. Não demora para que ele entre.
Pergunto qual o motivo da visita.
Vejo uma chama se acender nos seus olhos. Aproximo-me.
Posso sentir os batimentos cardíacos aumentando.
Nossas faces a menos de trinta centímetros, olhos nos olhos.
Ficamos assim, imóveis, por alguns minutos.
Neste hiato sou absorvido pela profundidade insana do seu olhar.
Ele cai sobre os joelhos. Minha frustração é visível.
Pergunta-me o motivo da introspecção.
Brinco que apenas rezo para chegar inteiro ao final da noite.
Seus braços alvos me envolvem em um abraço sem fim.
Afago sua cabeça e aprecio este momento.
Pego-lhe pelo maxilar e trago sua boca à minha, perdendo o juízo entre línguas e lábios.
Números não conseguem expressar os sentimentos ali presentes.
Um reencontro de almas.
Mais do que acaso, vida em seu clímax.
O tempo voa e a noite acaba.
Olho para trás e não vejo ninguém.
As cortinas balançam com o vento que entra pela janela aberta.
No alto do céu, um anjo que parte.




