terça-feira, 17 de março de 2009




Calo-me.
Um segundo é o bastante para perceber que mais alguém respira no recinto.
Olhos atentos miram meu semblante apreensivo.
Não consigo disfarçar um suspiro inconveniente.
Continuo meus passos.
Sento-me próximo à janela e peço um whisky com gelo.
O garçom me nega o pedido - já estão fechando a casa.
Escuto o saxofonista tocar as últimas notas do blues, pego meu casaco e tomo o rumo de casa.
Mais alguém decide ir embora.
Uma troca de olhares denuncia que a noite ainda não havia acabado.
Diminuo a distância entre os passos e, lentamente, o familiar estranho se aproxima.
Sinto minhas pernas perderem o ritmo. Paro.
"Você sabe que não deveria estar aqui", diz o estranho.
"Se este não é meu lugar, onde mais no universo seria?", respondo.
Silêncio.
Sem olhar para trás continuo minha caminhada.
Os passos me acompanham.
Ouço o celular tocar. Converso despreocupado naquela ruela escura e deserta.
Chego em casa e deixo a porta aberta. Não demora para que ele entre.
Pergunto qual o motivo da visita.
Vejo uma chama se acender nos seus olhos. Aproximo-me.
Posso sentir os batimentos cardíacos aumentando.
Nossas faces a menos de trinta centímetros, olhos nos olhos.
Ficamos assim, imóveis, por alguns minutos.
Neste hiato sou absorvido pela profundidade insana do seu olhar.
Ele cai sobre os joelhos. Minha frustração é visível.
Pergunta-me o motivo da introspecção.
Brinco que apenas rezo para chegar inteiro ao final da noite.
Seus braços alvos me envolvem em um abraço sem fim.
Afago sua cabeça e aprecio este momento.
Pego-lhe pelo maxilar e trago sua boca à minha, perdendo o juízo entre línguas e lábios.
Números não conseguem expressar os sentimentos ali presentes.
Um reencontro de almas.
Mais do que acaso, vida em seu clímax.
O tempo voa e a noite acaba.
Olho para trás e não vejo ninguém.
As cortinas balançam com o vento que entra pela janela aberta.
No alto do céu, um anjo que parte.

domingo, 1 de março de 2009

do desencontro ao reencontro....




Elegi novos culpados...Estabeleci penas indultas...Desejei não viver, desejei igualmente que o tempo parasse, que escolhesse outros culpados e perdoasse minha pretensão de viver a felicidade para sempre...
Os fantasmas estavam impregnando todos os nossos sonhos e vontades, nossas escolhas mais sinceras...
Sabia que ele partiria, mas não sabia que seria tão precoce, tão recente.
Caminhei muitas noites pela casa arrastando correntes, não dormia e nem sentia. Eu, era pura vigília... eu acendia velas e rezava para deuses imaginários...

Passei meus dias sorumbáticos...às vezes atônito, outras vezes, anestesiado... outras entretanto, totalmente catatônico...Escolhia morrer em lembranças...Deitava em nossa cama, outrora,reduto de prazeres e cumplicidades e agora minha prisão, meu cárcere inviolavelmente absoluto...

Chorava pelos cantos, chorando sua presença, clamando os beijos e os abraços que me afagaram e protegeram em noites escuras demais...
Passei a ver coisas, presentir outras... Nosso reino padecia de tua força e presença e secava com um ventre sem o poder da criação.

Longos e tenebrosos meses se passaram, com eles as esperanças. Veio a dor insana, o medo irremediável...Vieram com eles também um calvário de culpas e espiações. Os medos tornaram-se reais, travestidos de piedade e pecados.

Já conseguia adormecer... entregue, exausto e esperançoso que o dia não mais se descortinasse na minha frente...Assim mesmo, ele renascia a expiar minha culpa, a comprovar a tua ausência e lembrar-me do que tornei-me: uma esfinge de solidão & remorsos.

Várias vezes, em alternadas noites corri nu na praia, acendi fogueiras e tornei-me um protetor do farol,na ânsia e desejo que de alguma forma em algum momento o teu marco cingisse este oceano e atracasse no caís de todas as minhas esperanças...

Tu não retornaste,nem cartas, tampouco foram enviadas...
Sonhava com um sinal, com um sonho bom...
tinha nos lábios o gosto do féu, do sal deste oceano de grandes solidões...

O inverno chegara e com ele o vento e frio prenunciando um longo e tenebroso encontro com a solidão...

Primeiro comecei a queimar os porta-retratos, depois a cama, depois as mesas, por fim, comecei a queimar tuas roupas para me aquecer... Mal sabia eu, que tua ausência era destemida e tirana e dela eu nem mesmo seria abandonado...

Remotamente o tempo começava passar, passando com eles os sonhos, as esperanças e as vontades mais íntimas...

Meus lábios desejavam ouvir tua voz e pronunciar nos dele esse beijo de iguais.

Havia se passado 3 anos... Eu era tudo, menos um homem...Encolhi. Parecia um fantoche, um ser inanimado... Uma sombra a espreitar seus sonhos mais dignos atrás de portas, entre as cortinas, debaixo de travesseiros e oculto e confundido com armários e sotãos.

No meio deste caos organizado... nesta legião de mares, oceanos e solidões foi quando ele retornou...

Eu, no pórtico...Ele, na areia, como visagem, como ilusão... Caminhava impávido, absoluto, imenso ...crescia em frente aos meus olhos...

Eu, ou o que me tornei, experimentava um leve torpor... uma ânsia, um mal-estar embrulhava meu estômago e instalava-se na garganta...Dor, ira... raiva... tudo se reunia e confabulava a vingança, e a tirania íntima que havia ficado, desde que ele partiu...

Quanto mais ele se aproximava, mais dor & desespero me alcançavam...Ele havia colocado-me num calabouço e de lá, só agora me alcançava a chave para que eu experimentasse a tão cobiçada liberdade.

Ele alcançou o pórtico alcançando-me...Olhou profundamente e demoramente... Minhas pernas titubearam e caí em seus braços... Seu corpo encostou-se ao meu, havia um encaixe que eu nunca havia percebido...Fundiamo-nos...Éramos rio e mar encontrando-se nas mesmas águas para viver a dimensão destes oceanos infinitos e inexoravelmente possíveis.

Beijou primeiro, meu tronco...deslizou sua cabeça até minha boca e beijou-me como nunca havia beijado-me...primeiro o gosto de dor e solidão, despois de aço e esmalte...bem depois, o sumo, o gosto de fruta rara e madura sendo devorado a cada dentada...Não me contive e desabei...Primeiro veio um choro silencioso, abafado, sôfrego, depois um choro compulsivo e lancinante...
Eu apertava ele entre meus braços, engalfinha-me com o corpo dele e travava uma batalha de danos & reparações, orgulho & preconceito. Afinal eu era, sem saber, um reincidente no crime de acreditar... Eu era, um sonhador incorrigível...

Ele estava entregue - como um carneiro, resignado para enfrentar o próprio destino..Deixou-me depositar nele todas minhas dores & desesperos...Deixou-me agredi-lo com silêncios & dores... Secou minhas lágrimas com um beijo e abraçou-me para sempre, parecendo a eternidade em um segundo - Um império efêmero.

Colocou-me em seus braços e acolheu-me como acolhem pássaros aturdidos e abatidos em grandes tempestades. Deitou-me e buscou saber se eu estava acomodado...Em posição fetal encaixou-se à mim... como uma concha... assim respirou retribuido e compreensivo... Ele pedia perdão silenciosamente e desejava ser absolvido...Nosso encontro estava selado, marcado pela ira de Grandes Titãs. Os cavaleiros do Apocalipse haviam nos escoltado até ali...
Adormeci, como adormecem os ursos, hibernando todos aqueles retratos de dor e separação...Estava atrelado a ele... ligado a ele e a ninguém mais...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quando ele vem para ficar....


Com a chuva chegavam as lembranças, os desejos mais sinceros e íntimos...
Com a chuva chegavam as esperanças de boas lembranças...
Guardávamos em nossos olhos essas sensações de outras eras, de outros carnavais...Sabiamos que mesmo sem pronuncionar ou mencionar caminhávamos para o irremediável e para o inexorável...
Vinhámos ao decorrer de toda nossa história precisar o inusitado que primeiro, instalava-se sorrateiro embaixo de nossas unhas e bem depois embaixo de nossa pele.

Te olhava como se temesse que me despisses, pois quanto tu me olhavas eu sabia, que tu, encantador de serpentes, mestre dos magos e príncipes das marés, olhava intransigente e impertinentemente para minha alma...

Tu , com os teus modos estudados, avançava suavemente entre minhas arestas mais secretas. Depositava nelas e em mim, tal poder, tal lascívia. Jamais ousei negar-te o direito de invadir-me, de reconhecer-me em ti e tu sabias que fazias morada e que eras senhor destas terras, destes mares.
Eras também marujo, exímio velejador... Singia mares e afrontava tempestades...Eras um destemido Júpiter a governar absoluto todos os oceanos...

Quando te deitavas, Olympio silenciava e a sensação de que nem mesmo o mais poderoso de todos os deuses ousaria acordá-lo ou desafiá-lo...

Sempre soube que estaria unido a ti, a sua impertinente maneira de estabelecer este poder cúmplice em todas as coisas vividas ou praticadas.

Onde quer que eu fosse, estarias lá... como um vento a prenunciar que as marés se aproximam que as sereias entoam cantos em tua homenagem.

Na verdade, sempre soube que tu - homem primeiro ensinaria-me os prazeres mais tempestuosos e mais intensos... Outrossim, temia minha inexperiência em lidar com tal arrebatamento.

Embora o poder emanasse do seu plexo e concentrasse em seu sexo... nada , absolutamente nada era piegas ou tacanho... Havia uma elegância desconcertante e despojada em seu corpo, em seu cabelo...
O cabelo dele cheirava à madressilva fresca, colhida logo ao amanhecer... a pele em tom âmbar guardava impressões e histórias tatuadas aromatizada, suave e decididamente sedutora...

Quando ele me abraçava-me, abraçava também o meu mundo, abraçando a todos como uma comunhão divina, como um encontro de iguais.

Sabia que tal cumplicidade de horror & beleza trazia em si o incontrolável, o onírico e devasso desejo.

Várias vezes despertei-me nos braços dele, sobressalto, sôfrego e entregue, porém experimentava nos braços dele a segurança espartana. Ele, Alexander - The Great,conquistava uma a uma, todas minhas regiões - Era soberano e onipotente, sem sê-lo.

Quando andávamos desejava que ele, fosse o itinerário. Não temia estar com ele...Havia em nós essa cumplicidade e envolvimento únicas...

Lembro nitidamente então, quando ele partiu, partindo com ele o sol dos meus dias...
Previni os pássaros de voar, calei portas e janelas e sucumbi num silêncio de mil e uma noites...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entardecer no campo




Absorto em pensamentos alheios, percebo uma forma conhecida se aproximar. Sirvo vagarosamente o chá de camomila que degustava nesta manhã pacata. Os anos me ensinaram a não agir precipitadamente, deixando as águas fluírem no seu curso natural. Talvez tenha adquirido essa tranquilidade observando o mar, cujas ondas permanecem no seu ritmo peculiar, desde os primórdios do mundo.

Mesmo assim, um leve gelo se forma em minhas entranhas. Sou absorvido por esta atmosfera lúdica e, ao mesmo tempo, jogado contra as rochas pelas ondas, indiferentes à minha dor. O impacto me faz perceber o quanto sou frágil, ainda que tente parecer imponente como um dragão. Sangue e lágrimas se fundem às rochas e são levadas pelo mar. Ainda respiro.

O céu ganha tons avermelhados. O silênciodá lugar ao canto das cigarras. O vento cumprimenta a relva, abundantemente verde. Olho para a janela e avisto os pássaros. Vôo livre, sem receios. Ele me abraça. E, naquele lugar só nosso, deixamos a vida ser ela mesma. Sem conceitos distorcidos ou medos.

Do alto da montanha, ouvimos um bramido. A chuva cai...

O encontro com o Grande Dragão da Montanha...


...Depois da tempestade abrandada...bem depois de descansar nos olhos e braços deste estranho estrangeiro deixei que o mar fluisse... que o mar avançasse os bancos de areia, subisse até o pórtico, alongasse pelas portas e molhasse gentilmente meus pés desnudos.
Sentiamos o mar tomar conta... invadir silencioso, porém destemido, nossos lugares mais íntimos , banhando primeiro nossos sexos, depois nossas bocas e por fim, nossos olhos, nos fazendo chorar...

Indomáveis, éramos o registro da história de homens & suas trajetóríias, éramos o reflexo inexorável do que vivíamos, experimentávamos...

Talvez no fundo, infinitamente belo de nossos bolsos & corações soubéssemos deste encontro e dessa doce dependência... desse correr livre, fluído, constituido de todas as formas tranquilas e intransigentes...

Abriamos a casa,abrindo o coração, a alma e abrindo o inusitado... Construíamos a cada dia, um pouco mais desta realidade possível,desta intranquila porém mágica relação...

Ainda assim, algumas vezes, entretanto, calávamos ouvindo o nosso próprio silêncio recheado de todas as palavras não ditas...

Na varanda, na chaise longue, ele, se despreguiçava... olhava o mar como se ele e o mar há muito se conhecessem... íntimos, eu diria até...

Sorvia lentamente o chá de camomila, que emprestava a paisagem uma certa calmaria intranquila, uma paz intrigante e desconcertante.Na verdade, eu sabia que esta relação teria tal constituição, tal transmutação, tal formação...
Ele, leve e de pijamas, exibia despretenciosamente um dragão chinês, tatuado no dorso branco, ereto, sob uma montanha..impávido e avassaladoramente imponente...

Aquela imagem,aquele prenúncio de grandes encontros poderiam ser eternizados, poderiam render grandes histórias, poderiam até mesmo, revelarem uma nova percepção de pessoas e relacionamentos.

Eu, de pé, sobre a porta, observava-o e ele, sabendo-se observado, apenas levantou a mão e fez um sinal para que eu me aproximasse... Fiz o movimento até de forma desconcertante, como se estivesse dando os primeiros passos(quem sabe, de fato, era exatamente isso... pela primeira vez)

Sentei-me ao lado dele, como sentamos e experimentamos estar em um lugar sagrado, tocado por uma grande energia, imaculada e pura...

Ele, sem fitar-me...depositou sua mão sobre a minha...Absorvido pela situação e emoção, deixei-me ser tocado pela primeira vez, depois de muito tempo...
Bebi de seu chá e depois nos abraçamos num longo e surdo abraço...Encolhi-me para encaixar-me nos braços deles e deixei então que me abraçasse para sempre...O choro veio...as lágrimas tinham gosto de sal... as lágrimas eram o próprio mar...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Lua no deserto



Entre olhares e sorrisos descontraídos, sinto meu estômago incinerar. Como poderia eu ter esquecido esta sensação tão gostosa? Já havia algum tempo que eu simplesmente deixava o tempo passar despercebido. Despertar, naquele momento, em tão agradável companhia, era mais que uma grande coincidência: pura sorte.

A areia do deserto refletia a luz prateada das estrelas. E o vento se encarregava de jogá-la contra meu corpo. Cansado e com sede, avisto um viajante no horizonte. Reconheço-o e dele ouço as mais incríveis histórias. Conquistas e infortúnios. As horas passam rápido e, ao final da noite, vejo o sol nascer mais forte.

Mesmo perdido em uma multidão anônima, não poderia esquecer um sorriso tão bem delineado e marcante. A alegria quase ingênua de um sábio companheiro me fazendo entrar em um êxtase profundo. E meu poço, de papel, se desfaz com a abundante água da tempestade que passou...
Bem depois da tempestade, das horas úmidas falando de entregas mal-resolvidas, ele, sem avisar, abria todas as minhas portas mais íntimas... Chegava trazendo consigo areia de grandes desertos... Tinha nos olhos aquelas solidões primeiras... Carregava em si uma história de grandes batalhas, de guerras e anjos...
Os passos largos ressoavam destemidos por corredores e quartos. Largava as bagagens como se libertam pássaros de seus cativeiros... Ele chegava como bons ventos, entretanto repleto de presságios, mantras e segredos desnudos.

Não sei se conseguiria precisar quando finalmente ele, e seu tácito poder instalaram-se; primeiro em meu plexo... Logo após em meu estômago, como um soco, como uma ânsia de grandes esperas.
O universo constituído ao meu redor parecia curvar-se diante dele. Tudo era voltado para ele e com ele... Atônito, eu aguardava o inusitado... Aguardando também essa intranqüila ânsia que invadia sôfrega todos os meus desejos & medos...