sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quando ele vem para ficar....


Com a chuva chegavam as lembranças, os desejos mais sinceros e íntimos...
Com a chuva chegavam as esperanças de boas lembranças...
Guardávamos em nossos olhos essas sensações de outras eras, de outros carnavais...Sabiamos que mesmo sem pronuncionar ou mencionar caminhávamos para o irremediável e para o inexorável...
Vinhámos ao decorrer de toda nossa história precisar o inusitado que primeiro, instalava-se sorrateiro embaixo de nossas unhas e bem depois embaixo de nossa pele.

Te olhava como se temesse que me despisses, pois quanto tu me olhavas eu sabia, que tu, encantador de serpentes, mestre dos magos e príncipes das marés, olhava intransigente e impertinentemente para minha alma...

Tu , com os teus modos estudados, avançava suavemente entre minhas arestas mais secretas. Depositava nelas e em mim, tal poder, tal lascívia. Jamais ousei negar-te o direito de invadir-me, de reconhecer-me em ti e tu sabias que fazias morada e que eras senhor destas terras, destes mares.
Eras também marujo, exímio velejador... Singia mares e afrontava tempestades...Eras um destemido Júpiter a governar absoluto todos os oceanos...

Quando te deitavas, Olympio silenciava e a sensação de que nem mesmo o mais poderoso de todos os deuses ousaria acordá-lo ou desafiá-lo...

Sempre soube que estaria unido a ti, a sua impertinente maneira de estabelecer este poder cúmplice em todas as coisas vividas ou praticadas.

Onde quer que eu fosse, estarias lá... como um vento a prenunciar que as marés se aproximam que as sereias entoam cantos em tua homenagem.

Na verdade, sempre soube que tu - homem primeiro ensinaria-me os prazeres mais tempestuosos e mais intensos... Outrossim, temia minha inexperiência em lidar com tal arrebatamento.

Embora o poder emanasse do seu plexo e concentrasse em seu sexo... nada , absolutamente nada era piegas ou tacanho... Havia uma elegância desconcertante e despojada em seu corpo, em seu cabelo...
O cabelo dele cheirava à madressilva fresca, colhida logo ao amanhecer... a pele em tom âmbar guardava impressões e histórias tatuadas aromatizada, suave e decididamente sedutora...

Quando ele me abraçava-me, abraçava também o meu mundo, abraçando a todos como uma comunhão divina, como um encontro de iguais.

Sabia que tal cumplicidade de horror & beleza trazia em si o incontrolável, o onírico e devasso desejo.

Várias vezes despertei-me nos braços dele, sobressalto, sôfrego e entregue, porém experimentava nos braços dele a segurança espartana. Ele, Alexander - The Great,conquistava uma a uma, todas minhas regiões - Era soberano e onipotente, sem sê-lo.

Quando andávamos desejava que ele, fosse o itinerário. Não temia estar com ele...Havia em nós essa cumplicidade e envolvimento únicas...

Lembro nitidamente então, quando ele partiu, partindo com ele o sol dos meus dias...
Previni os pássaros de voar, calei portas e janelas e sucumbi num silêncio de mil e uma noites...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entardecer no campo




Absorto em pensamentos alheios, percebo uma forma conhecida se aproximar. Sirvo vagarosamente o chá de camomila que degustava nesta manhã pacata. Os anos me ensinaram a não agir precipitadamente, deixando as águas fluírem no seu curso natural. Talvez tenha adquirido essa tranquilidade observando o mar, cujas ondas permanecem no seu ritmo peculiar, desde os primórdios do mundo.

Mesmo assim, um leve gelo se forma em minhas entranhas. Sou absorvido por esta atmosfera lúdica e, ao mesmo tempo, jogado contra as rochas pelas ondas, indiferentes à minha dor. O impacto me faz perceber o quanto sou frágil, ainda que tente parecer imponente como um dragão. Sangue e lágrimas se fundem às rochas e são levadas pelo mar. Ainda respiro.

O céu ganha tons avermelhados. O silênciodá lugar ao canto das cigarras. O vento cumprimenta a relva, abundantemente verde. Olho para a janela e avisto os pássaros. Vôo livre, sem receios. Ele me abraça. E, naquele lugar só nosso, deixamos a vida ser ela mesma. Sem conceitos distorcidos ou medos.

Do alto da montanha, ouvimos um bramido. A chuva cai...

O encontro com o Grande Dragão da Montanha...


...Depois da tempestade abrandada...bem depois de descansar nos olhos e braços deste estranho estrangeiro deixei que o mar fluisse... que o mar avançasse os bancos de areia, subisse até o pórtico, alongasse pelas portas e molhasse gentilmente meus pés desnudos.
Sentiamos o mar tomar conta... invadir silencioso, porém destemido, nossos lugares mais íntimos , banhando primeiro nossos sexos, depois nossas bocas e por fim, nossos olhos, nos fazendo chorar...

Indomáveis, éramos o registro da história de homens & suas trajetóríias, éramos o reflexo inexorável do que vivíamos, experimentávamos...

Talvez no fundo, infinitamente belo de nossos bolsos & corações soubéssemos deste encontro e dessa doce dependência... desse correr livre, fluído, constituido de todas as formas tranquilas e intransigentes...

Abriamos a casa,abrindo o coração, a alma e abrindo o inusitado... Construíamos a cada dia, um pouco mais desta realidade possível,desta intranquila porém mágica relação...

Ainda assim, algumas vezes, entretanto, calávamos ouvindo o nosso próprio silêncio recheado de todas as palavras não ditas...

Na varanda, na chaise longue, ele, se despreguiçava... olhava o mar como se ele e o mar há muito se conhecessem... íntimos, eu diria até...

Sorvia lentamente o chá de camomila, que emprestava a paisagem uma certa calmaria intranquila, uma paz intrigante e desconcertante.Na verdade, eu sabia que esta relação teria tal constituição, tal transmutação, tal formação...
Ele, leve e de pijamas, exibia despretenciosamente um dragão chinês, tatuado no dorso branco, ereto, sob uma montanha..impávido e avassaladoramente imponente...

Aquela imagem,aquele prenúncio de grandes encontros poderiam ser eternizados, poderiam render grandes histórias, poderiam até mesmo, revelarem uma nova percepção de pessoas e relacionamentos.

Eu, de pé, sobre a porta, observava-o e ele, sabendo-se observado, apenas levantou a mão e fez um sinal para que eu me aproximasse... Fiz o movimento até de forma desconcertante, como se estivesse dando os primeiros passos(quem sabe, de fato, era exatamente isso... pela primeira vez)

Sentei-me ao lado dele, como sentamos e experimentamos estar em um lugar sagrado, tocado por uma grande energia, imaculada e pura...

Ele, sem fitar-me...depositou sua mão sobre a minha...Absorvido pela situação e emoção, deixei-me ser tocado pela primeira vez, depois de muito tempo...
Bebi de seu chá e depois nos abraçamos num longo e surdo abraço...Encolhi-me para encaixar-me nos braços deles e deixei então que me abraçasse para sempre...O choro veio...as lágrimas tinham gosto de sal... as lágrimas eram o próprio mar...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Lua no deserto



Entre olhares e sorrisos descontraídos, sinto meu estômago incinerar. Como poderia eu ter esquecido esta sensação tão gostosa? Já havia algum tempo que eu simplesmente deixava o tempo passar despercebido. Despertar, naquele momento, em tão agradável companhia, era mais que uma grande coincidência: pura sorte.

A areia do deserto refletia a luz prateada das estrelas. E o vento se encarregava de jogá-la contra meu corpo. Cansado e com sede, avisto um viajante no horizonte. Reconheço-o e dele ouço as mais incríveis histórias. Conquistas e infortúnios. As horas passam rápido e, ao final da noite, vejo o sol nascer mais forte.

Mesmo perdido em uma multidão anônima, não poderia esquecer um sorriso tão bem delineado e marcante. A alegria quase ingênua de um sábio companheiro me fazendo entrar em um êxtase profundo. E meu poço, de papel, se desfaz com a abundante água da tempestade que passou...
Bem depois da tempestade, das horas úmidas falando de entregas mal-resolvidas, ele, sem avisar, abria todas as minhas portas mais íntimas... Chegava trazendo consigo areia de grandes desertos... Tinha nos olhos aquelas solidões primeiras... Carregava em si uma história de grandes batalhas, de guerras e anjos...
Os passos largos ressoavam destemidos por corredores e quartos. Largava as bagagens como se libertam pássaros de seus cativeiros... Ele chegava como bons ventos, entretanto repleto de presságios, mantras e segredos desnudos.

Não sei se conseguiria precisar quando finalmente ele, e seu tácito poder instalaram-se; primeiro em meu plexo... Logo após em meu estômago, como um soco, como uma ânsia de grandes esperas.
O universo constituído ao meu redor parecia curvar-se diante dele. Tudo era voltado para ele e com ele... Atônito, eu aguardava o inusitado... Aguardando também essa intranqüila ânsia que invadia sôfrega todos os meus desejos & medos...