quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O encontro com o Grande Dragão da Montanha...


...Depois da tempestade abrandada...bem depois de descansar nos olhos e braços deste estranho estrangeiro deixei que o mar fluisse... que o mar avançasse os bancos de areia, subisse até o pórtico, alongasse pelas portas e molhasse gentilmente meus pés desnudos.
Sentiamos o mar tomar conta... invadir silencioso, porém destemido, nossos lugares mais íntimos , banhando primeiro nossos sexos, depois nossas bocas e por fim, nossos olhos, nos fazendo chorar...

Indomáveis, éramos o registro da história de homens & suas trajetóríias, éramos o reflexo inexorável do que vivíamos, experimentávamos...

Talvez no fundo, infinitamente belo de nossos bolsos & corações soubéssemos deste encontro e dessa doce dependência... desse correr livre, fluído, constituido de todas as formas tranquilas e intransigentes...

Abriamos a casa,abrindo o coração, a alma e abrindo o inusitado... Construíamos a cada dia, um pouco mais desta realidade possível,desta intranquila porém mágica relação...

Ainda assim, algumas vezes, entretanto, calávamos ouvindo o nosso próprio silêncio recheado de todas as palavras não ditas...

Na varanda, na chaise longue, ele, se despreguiçava... olhava o mar como se ele e o mar há muito se conhecessem... íntimos, eu diria até...

Sorvia lentamente o chá de camomila, que emprestava a paisagem uma certa calmaria intranquila, uma paz intrigante e desconcertante.Na verdade, eu sabia que esta relação teria tal constituição, tal transmutação, tal formação...
Ele, leve e de pijamas, exibia despretenciosamente um dragão chinês, tatuado no dorso branco, ereto, sob uma montanha..impávido e avassaladoramente imponente...

Aquela imagem,aquele prenúncio de grandes encontros poderiam ser eternizados, poderiam render grandes histórias, poderiam até mesmo, revelarem uma nova percepção de pessoas e relacionamentos.

Eu, de pé, sobre a porta, observava-o e ele, sabendo-se observado, apenas levantou a mão e fez um sinal para que eu me aproximasse... Fiz o movimento até de forma desconcertante, como se estivesse dando os primeiros passos(quem sabe, de fato, era exatamente isso... pela primeira vez)

Sentei-me ao lado dele, como sentamos e experimentamos estar em um lugar sagrado, tocado por uma grande energia, imaculada e pura...

Ele, sem fitar-me...depositou sua mão sobre a minha...Absorvido pela situação e emoção, deixei-me ser tocado pela primeira vez, depois de muito tempo...
Bebi de seu chá e depois nos abraçamos num longo e surdo abraço...Encolhi-me para encaixar-me nos braços deles e deixei então que me abraçasse para sempre...O choro veio...as lágrimas tinham gosto de sal... as lágrimas eram o próprio mar...

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